Aracaju, 19 de Setembro de 2018
Açoite e chibata - e saiba com quem está falando!


Mesmo sem compreender o contexto histórico no qual teve vez e voz, ainda assim grande parte das pessoas logo renega o termo coronelismo. Soa sempre como um tempo onde senhores potentados tratavam seus subordinados como se bichos fossem, ou, quando muito, como meros sabujos às suas mais escusas intenções. Contudo, bastaria lançar um olhar sobre o tempo presente e compreender que suas sombras ainda permanecem insepultas.

Aquele tempo histórico, onde o mandonismo, aliado ao abuso e prepotência, caracterizava as relações sociais entre fracos e fortes, entre poderosos e submissos, agia para a manutenção de um poder a serviço de poderes maiores, principalmente políticos, parece não ter acabado com o fim do coronelismo patriarcal. Pelo contrário, se arrastou entre escombros e acabou ganhando sobrevida nas novas formas de organização social. O coronel de agora é outro, mas com a mesmice do mando, ainda que com menor poder de obediência.

O senhorio exercido das casas-grandes, dos casarios, dos casarões e outras fortalezas fincadas nos latifúndios ou feudos modernos, é o mesmo senhorio encastelado nos gabinetes de agora. Entretanto, aquela autoridade construída pela força, pela vindita de sangue, pela riqueza, poder e gestação de influências, deu lugar a uma autoridade forjada nos cargos, funções e bajulações. A não ser o autoritarismo herdado na própria fortuna, todo o restante é alicerçado no papel exercido, seja social ou político.

Mas, no todo, de ontem para hoje, mudaram apenas algumas nuances. Modificaram-se os conceitos, porém permaneceram as formas. A bengala medonha e temida foi transformada em caneta dourada. A chibata e o açoite acabaram se transmudando em veladas perseguições, injustiças premeditadamente praticadas e acossamento de todos aqueles que critiquem ou se insurjam contra suas formas de atuação. E os casarões foram apenas transferidos para prédios suntuosos e seus gabinetes impenetráveis.

A verdade é que o coronelismo continua tão arrogante como antigamente. Despiram-se do terno de linho branco, do chapéu panamá, das botas de cano afivelado, do charuto no canto da boca, mas se revestiram de patentes doutorais, de anéis brilhosos, de ternos importados, de togas, de mantos endinheirados, de dignificações do poder. E por isso permanece tão vivo como antigamente. Depuseram-se as ordens de sangue, as sentenças de morte, as licenças jaguncistas para a tocaia, mas retomaram-se as resoluções imperiosas, os cumprimentos sem negação, as canetadas prestigiosas, as medidas justificadas somente pelo poder.

Aquele coronel de casa-grande, de reinado na varanda e senhorio de terra e gente, já não existe mais. Do mesmo modo, já não pertence ao mundo dos latifúndios aquele senhor dono do voto e do mundo, aquele dono de curral de submissos. Mas restaram outros coronéis não menos poderosos. O coronel do poder exercido através apenas de um telefonema, da decisão absurda, da ordem imperiosa, do desfazimento do feito, da influência política, da conta bancária e do prestígio social, político e perante as instituições.

Qual o mais valente dos coronéis? Nenhum dos dois. Tanto este como aquele se valem apenas do escudo do poder, do prestígio, da influência. Aquele se utilizava do jagunço, do capataz ou matador para exteriorizar o seu ódio e sua maldade. Este se utiliza do próprio poder para limitar o destino e a sina de todos aqueles que lhes servem por submissão. Empregados, subservientes, dependentes de suas ordens. Sua valentia só tem validade quando ordena, pois depois se esconde por medo.

Qual o mais poderoso dos coronéis? Certamente aquele, que mantinha o poder político em suas mãos, fazia e desfazia governantes, interferia em toda a vida da nação. De sua cadeira de balanço na casa-grande, bastava enviar uma ordem para tudo se amoldar ao seu gosto, e dando na cusparada um prazo de cumprimento. Este de agora só tem o poder - ainda que quase ilimitado - na sua esfera de atuação. Também elege e faz derrotar, mas sem força suficiente para se manter como dono dos destinos da política. Outras vezes, com império somente até onde sua força não encontre uma força ainda maior.

Qual o mais perigoso dos dois. Sem dúvida que este de agora, pois muito mais frio, mais falso e muito mais covarde que o coronel de antigamente. E, por ser tão covarde, agindo somente pelo escudo do cargo, função ou riqueza, é que se torna tão mais perigoso. E principalmente se o poder ostentado não for por merecimento ou se estiver amoldado à sua postura de oportunista. E perigoso demais porque não mede consequências para agradar o poder maior e garantir sua permanência no pedestal rente ao chão.

Mas em todos, ainda o açoite, ainda a chibata. Em todos, ainda a desmedida arrogância e o abuso irrefreável. E a pessoa comum, ou mesmo um degrau abaixo de sua hierarquia, será sempre o escravo, o submisso, o perseguido. E não é difícil encontrá-los por aí. Toda vez que ecoar um “sabe com quem está falando?”, aí estará um repugnante exemplar.

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RANGEL ALVES DA COSTA é advogado e escritor. Acesse blograngel-sertao.blogspot.com

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