Aracaju, 18 de Setembro de 2018
Um cemitério escravo no alto da serra


Ainda não o conheço, mas ouço muitos relatos acerca de sua existência. Trata-se de um cemitério dos negros encravado no alto da Serra da Conceição, esta fazendo parte do complexo montanhoso denominado Serra da Guia, onde se assenta o ponto culminante do estado de Sergipe, no município sertanejo de Poço Redondo, próximo à divisa com Pedro Alexandre, antiga Serra Negra, no estado da Bahia.

A Guia é uma das mais antigas povoações das terras poço-redondenses, surgida em moldes diferentes dos demais desbravamentos vindos das beiradas do São Francisco, vez que nascida com escravos fugidios de outras paragens nordestinas e ali fixando moradia em quilombos. Então, entre serras ou no alto dos montes, os negros foram gestando um novo viver, em meio às durezas da terra, perseguições e misérias, até se enraizarem como comunidade forte e abnegada, além de possuidora de imensa riqueza histórica e cultural.

Enquanto comunidade quilombola, o seu reconhecimento só foi conseguido a duras penas. Durante todo um percurso de vida, o povo negro da Guia foi reconhecido apenas pela sua herança escrava, pela cor e principalmente por uma moradora famosa: Zefa da Guia, parteira renomada, mulher das quatro artes na reza, no curandeirismo e no benzimento. Somente a partir de 2009, a Fundação Cultural Palmares reconheceu oficialmente o seu status de comunidade quilombola.

Mesmo reconhecida, a comunidade da Serra da Guia continua vivendo na simplicidade, e até na pobreza, como nas gerações passadas. Grande parte reside em casas de cipó e barro, com fogões de lenha e demais utensílios rústicos tão costumeiros nos tempos idos. Outra parte, mais economicamente favorecida, possui casa de alvenaria e algum conforto. Cultivam a terra, quando a chuva deixa, e quando não se reinventam pela necessidade de sobrevivência. E uma sobrevivência dificultada até mesmo pela distância e isolamento da região.

A religiosidade é fator de grande relevância na comunidade da Guia. Ali explícito o sincretismo religioso: o catolicismo é abraçado pela mesma mão que preserva outros cultos. A crença na divindade cristã não impede que os cultos de origem africana continuem sendo praticados, que as crenças sejam diversificadas e as superstições continuem com relevância. O curandeirismo, por exemplo, é usualmente praticado, ainda que a curandeira seja aquela mesma que organiza as festas religiosas. São tradicionais os novenários da Santa Cruz nos nove dias que antecedem o três de maio, dia santo da Santa Cruz.

Mas segundo informações de Manoel Belarmino, um poço-redondense profundo conhecedor da história sertaneja, a comunidade da Serra da Guia não era onde hoje está, no pé da serra, mas na região onde está o cemitério, no alto da serra.  Neste cume ainda são encontrados sinais da antiga povoação, tais como escombros de antigas casas de farinhas, de casas de ferreiros, pés de cajueiro e mangueiras espalhados juntos à vegetação nativa, além dos escombros das primeiras moradias. E não é difícil encontrar gamelas, restos de potes, pedaços de bancos de madeira e outras quinquilharias espalhados pelo mato. Tudo lá no cimo, afastado das paisagens abertas mais abaixo.

Ainda segundo Belarmino, o cemitério da Guia fica no ponto mais alto da Serra da Conceição, exatamente onde se concentra a vegetação com mais forte característica de mata atlântica, pois ali as orquídeas, as bromélias, as plantas de folhagens largas e as árvores altas e pujantes. É neste entremeado que estão as sepulturas dos ancestrais quilombolas, onde jazem aqueles primeiros que chegaram fugindo do açoite, do tronco, do contínuo sofrimento. Tudo como um santuário negro, de extrema simbologia devocional, cujo acesso dificultoso imprime a feição de paraíso aos escolhidos.

Quando a comunidade desceu a serra e se estabeleceu nos arredores abaixo, aquele cemitério lá permaneceu exatamente como um marco da ancestralidade. As sepulturas, contudo, não poderiam nem deveriam ser abandonadas ou esquecidas e, por isso mesmo, alguns enterros de descendentes continuaram sendo feitos no cume da serra, ainda que fossem muitos os sacrifícios para escalar ladeiras e caminhos íngremes, levando o defunto e todo o peso da dor dos parentes. Por que atualmente se utiliza o cemitério de baixo, é preciso que a pessoa, com linhagem ancestral e ainda em vida, deixe claro o desejo de que sua sepultura seja aberta naquela terra sagrada pela negra raiz.

Contudo, o cemitério no alto encravado, vai muito além de ser apenas uma última moradia ancestral. Na fuga, os escravos se abrigaram no alto da serra para dificultar a localização e permitir uma eficiente defesa. Ali se tornou um local seguro para se viver. E também o mais garantido para a perpetuação da alma após a morte. As sepulturas ali existentes são como pilares de fundação da nova vida de um povo, reverenciadas em rituais e tidas como no primeiro degrau de um céu dos negros. No alto da serra, próximo das nuvens, os espíritos ancestrais estão mais próximos de seus deuses negros e da divindade maior.

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RANGEL ALVES DA COSTA é advogado e escritor. Acesse blograngel-sertao.blogspot.com

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