Aracaju, 19 de Setembro de 2018
Feira do interior


A feira interiorana, grande ou pequena, já começa ao entardecer do dia anterior. Caminhões vão desembarcando produtos, feirantes vão ajeitando suas tendas e barracos, por cima das bancas os fardos vão sendo abertos, os sacos são empilhados, os cestos são arrumados. E tem até gente que aproveita a arrumação para ir logo catando uma melancia, uma abóbora, um melão.

Durante a noite inteira os feirantes se esmeram nos arranjos. Carregamentos e mais carregamentos vão chegando, cada um vai levando seus produtos de venda para seus espaços, e quando o dia amanhece já se encontra de tudo de ponta a outra. E também pelos arredores, vez que as feiras de hoje vão tomando ruas, calçadas, se espalhando por todo lugar. Sem falar no comércio permanente que é sempre grande nas praças e imediações.

Atualmente, com o aumento das populações e a disponibilidade maior de produtos, a feira em si é dividida em muitos locais, segundo o que seja colocado à venda. Assim, se fala em feira das verduras, das frutas, da farinha, do queijo e da manteiga, das panelas, das roupas, das quinquilharias, do frango, da carne de porco e da carne de gado. Tudo próximo um do outro, mas com locais de destinação específica.

Pequenos vendedores também aproveitam os espaços para instalar sua banquinha de qualquer coisa. É assim que é possível encontrar o quebra-queixo, a cuia de araçá, o arroz doce, o bolo de milho, o pé-de-moleque, o beiju, o malcasado, a pamonha, a cocada branca e a cocada queimada, o doce caseiro, a gostosura diferenciada. E também o comércio ambulante e seus anunciantes gritando as palavras tão conhecidas: Olha a pomada de peixe-boi, sem igual na cura do reumatismo, da erisipela, da doença das juntas, das inflamações da garganta e até para juntar osso partido.

Mais adiante outro grita: Quem vai querer óleo de tubarão, o melhor remédio para todas as doenças do corpo e da alma. Cada frasquinho custa apenas três contos. Levando dois só paga cinco contos de réis. Ou ainda: Venha experimentar e adquirir a maior novidade chegada diretamente da Amazônia, feita por velho pajé. Trata-se de uma porção milagrosa que misturada em copo d’água levanta até defunto, e também sem igual na cura das palpitações do coração, enxaqueca e desânimo de tudo.

Não é difícil ainda encontrar barracas com livretos pendurados em barbantes e o vendedor anunciando cordel de todo tipo, com pelejas que vão desde a chegada de Lampião ao mundo da escuridão ao casamento da donzela com o broxado coronel. Não há mais aqueles velhos retratistas com seus tripés mágicos e seus retratos em preto e branco, mas ainda assim é possível encontrar a barraca cortinada para fotografia instantânea e colorida. Com direito a três por quatro com gravata e datação logo abaixo.

Mesmo com alguns inconvenientes dos barulhos e dos apertos, não há nada mais prazeroso que um passeio pelas opções das feiras interioranas. Encontra-se de tudo, do esperado ao absolutamente inesperado. As provocações são tantas que é impossível não se encantar com as melancias bonitas, vermelhinhas, apetitosas. Assim também com as mangas, as jacas perfumadas, os melões maduros. Feijão de corda, fava, milho verde, abacaxi, goiabas graúdas, banana de todo tipo. E quem vai apenas com uma sacolinha, imaginando que não vai cair em nenhuma outra tentação, acaba retornando quase sem poder carregar tanta coisa.

Outro dia, caminhando logo cedinho pela feira de Poço Redondo, numa segunda-feira com jeito de fim de semana, eis que pude reencontrar até mesmo a minha infância. Jamais imaginaria avistar rosário de aricuri, feito de coquinhos enfiados em linha, e quase uma brincadeira apetitosa que tanto fazia parte dos pescoços da criançada sertaneja de outros tempos. Também o aricuri em casca, pronto pra ser quebrado em calçada e levado à boca pedaço a pedaço. E também o vendedor de passado, pois com mesinha contendo pião, carrinho de madeira e boi de barro. As bonecas de pano eram tão bonitas que fiquei enamorado.

A música Feira de Mangaio, letra de Glorinha Gadelha e Sivuca, traduz toda essa beleza. Seus versos são tão verdadeiros como o que ainda se encontra por lá: Fumo de rolo, arreio de cangalha, eu tenho pra vender, quem quer comprar? Bolo de milho, broa e cocada, eu tenho pra vender, quem quer comprar? Pé de moleque, alecrim, canela, moleque sai daqui me deixa trabalhar. E Zé saiu correndo pra feira de pássaros e foi passo voando pra todo lugar. Tinha uma vendinha no canto da rua, onde o mangaieiro ia se animar, tomar uma bicada com lambu assado e olhar pra Maria do Juá...

Mas é preciso muito cuidado. Um copo de arroz doce, depois um pedaço de bolo de milho e uma colherada de doce batido, tudo isso vai fazendo uma diferença danada no corpo. Contudo, impossível não experimentar os sabores e os cheiros das feiras interioranas.

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RANGEL ALVES DA COSTA é advogado e escritor. Acesse blograngel-sertao.blogspot.com

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