Aracaju, 19 de Setembro de 2018
A vez do governo dos machos, dos brancos e dos bons vivants ou onde os fracos não têm vez


Agora a turma da “bala, do boi e da bíblia”, todos os energúmenos e reacionários da nação têm um governo exclusivamente para chamar de seu.

Evidentemente que, sem que fosse necessário a disputar uma eleição geral e apresentar o seu projeto político para que fosse submetido a sufrágio,  toda aquela turma de sorridentes senhoras que desfilou nas passeatas da  Avenida Treze de Julho, da Avenida Paulista, na Praia de Copacabana ou na  Avenida Princesa Isabel, em Salvador, algumas delas arrastando os seus cachorrinhos engalanados e trajados para festa, todas aquelas famílias , que se orgulhavam de exibir e ostentar as suas babás e empregadas domésticas vestindo os seus clássicos uniformes, agora podem festejar e cantar loas, posto que têm um governo que verdadeiramente os representa. Um governo que ascendeu ao poder sem que necessitasse de um só voto.

De fato, desde a manhã do último dia 12 de maio de 2016, os machos, os brancos, os mauricinhos, os “bons vivants”, as dondocas, os sequazes dos “chicago-boys”, os prosélitos do neo-pentencostalismo e os saudosos do século XIX, bem como os da Ditadura Militar têm um governo que é a síntese ou melhor o amálgama de todas as suas crenças e ideologias, um governo do qual podem ser orgulhar e que os dignifica.

O governo da reação nasceu sob a égide da “ordem e progresso” ou seja do retorno ao período que vigorou dos fins século XIX até o final da década de 1920, aquele período que parecia ter sido varrido do mapa, por Getúlio Vargas, quando encabeçou a Revolução de 1930, derrubando a aristocracia do café-com-leite. Sob o signo do passadismo nasceu o “novo” governo que sucedeu a era petista.

 Basta atentar para os rostos das figurinhas e perscrutar os discursos para ver que representam o mais negro passado e nada trazem de novo os que formam o novo governo.  Até os discursos guardam semelhança com aqueles tempos áureos do passado antes da Era Getulista.

Ao afirmar a religião como uma necessidade premente da unidade da nação, o novo Chefe do Executivo e do Estado não está a falar da religião cristã ou outra religião que tenha grande seguidores, a exemplo, do Islamismo ou Hinduísmo, mas da religião dos Positivistas, aquela do “Ser Supremo”, afinal a república brasileira nasceu sob os fundamentos do Positivismo e o Brasil é o único país  no mundo a ostentar uma Catedral Positivista para o culto do “Ser Supremo”, erguida pelos seguidores do pensamento de Augusto Comte, os nossos republicanos inaugurais e que agora se veem redivivos e  retornam ao poder. Aquela “Catedral”, que até ontem se encontrava decrépita e abandonada, por certo, restaurada, para ser o centro de convergência da “Religião” do Estado, a concorrer com outras catedrais católicas, neopentecostais ou do protestantismo tradicional. Talvez cause algum descontentamento entre neopentecostais, posto que pretendem a primazia da desfaçatez e na mercancia da fé.

Também para aqueles saudosos dos tempos em que “chicago-boys” iniciaram a implantar o neoliberalismo no Chile, sob a ditadura do General Augusto Pinochet, aqueles que até ontem choravam e arrancavam os cabelos com saudades da “Dama de Ferro”, a Senhora Margareth Thatcher, e do Presidente Ronald Reagan, agora não têm mais do que se queixar, eis que os bons tempos voltaram. O Nosso Presidente, na sua oração inaugural, disse em alto e bom som que o Estado deve atear a suas preocupações com a Segurança, a Saúde e a Educação. Foi o discurso mais enfático na defesa do neoliberalismo e do estado mínimo, nem mesmo Fernando Collor ou o outro Fernando, o Cardoso, ousou ir tão longe. Embora para fazer corar Carl Menger, Friedrich Hayek e Ludwig Heinrich Edler von Mises, aquela turma da Escola Austríaca, tenha temperado o seu discurso, falando na permanência dos programas sociais, tal adendo se trata, na verdade, de atenuante ou de mera “perfumaria”.

No discurso inaugural, a ênfase na eficiência administrativa, que, sem sombras de dúvidas, deve ser perseguida por toda administração minimamente razoável, para o governo, porém, se trata de um eufemismo para dizer que o tempo do “fordismo” e da “administração burocrática” no Estado Brasileiro passou e que agora retornaremos àqueles tempos da administração clássica, os tempos de  Frederick Winslow TaylorHenri Fayol.  Portanto, o pronunciar CLT é heresia, nada de se falar em direitos, mas em lucros crescentes, maximização de mais-valia e rentabilidade, tudo com o máximo de esforço dos trabalhadores e da mão de obra empregada.

Com a ascensão do Presidente Michel Miguel Temer ao “poder” aquela aparente esquizofrenia existente entre um Parlamento absolutamente conservador e um Poder Executivo “progressista” tem o seu termo. Agora Poder Executivo e Poder Legislativo estão unidos na comunhão de esforços, tem simbiose quando as ideologias. Com o GOLPE DE ESTADO encetado pelo Parlamento formado, na sua maioria, por reacionários, conservadores, liberais, ou seja, por direitistas, se corrige o grande erro que ocorreu nas últimas eleições gerais, quando a população fora confundida e escolheu uma Presidenta que representava o espectro da esquerda política e, quanto ao Parlamento, majoritariamente, se escolheu congressistas direitistas.

Agora, como os reacionários com discurso de liberais à frente do Poder Executivo, os Poderes da República, todos eles, aparentemente estão a guardar harmonia e se encontraram com o espírito da “verdadeira Nação”.

O Brasil, aquele país que se afirma tolerante, não racista, não xenófobo, não misógino e não machista, mas que quando das pesquisas qualitativas ou quantitativas se mostra exatamente o contrário do que afirma e tais anomalias e preconceitos endógenos se expressam, mas não apenas nas pesquisas, também no convívio entre as pessoas e na vida diária, sobretudo, nos últimos tempos, não tem mais o que disfarçar, pode se assumir como um país em que uma minoria, os brancos, os machos, os empoderados pelo dinheiro, os crentes neopentecostais emergentes  impõe o seu domínio sobre as maiorias.

Nada mais representativo do nosso cinismo e do país excludente do que a formação do novo governo. O seu staff é a representação mais evidente de que filosoficamente ainda estamos ou retornamos para o século XIX. Nossos postulados administrativos, aqueles afirmados pelo novo governo, são os anteriores ao fordismo. Em Economia, se pudéssemos e fosse permitido, retornaríamos aos tempos de Adam Smith e David Ricardo. Temos enorme saudade da “mão invisível do mercado” dominando tudo.

Com a emergência do “novo” governo, as contestações pelos excluídos e empurrados para margem, com o processo de regressão, embora não estejamos sob uma ditadura aberta, mas apenas disfarçada, encontraram pela frente a força do estado gendarme, que não fará concessões às manifestações de rua e fará ranger os dentes do aparelho militar ou policial, empunhando cassetetes, além de fazendo explodirem bombas, para que os descontentes refluam e saibam que para a existência do progresso antecede a ordem. Toda espécie de descontentamento será contida. Afinal retroagimos para antes da década de 1930 e problema social é caso de polícia e não de Justiça.

Esse governo, é o que temos agora. É afirmação categórica de que fracos não têm e jamais terão vez. Cabe, portanto, àqueles que lhes vão se opor terem aprendido o dever de casa e compreenderem de fato o que é o “novo” governo e em que se constitui, o que representa, os fundamentos e princípios que lhes dão sustentação. Até porque, embora, exercendo o domínio ocasional, por força de temerária manipulação ideológica da opinião pública, são, contudo, a absoluta minoria da nação, nos seus aspectos antropológico, cultural, econômico e sociológico. Tratam- se de usurpadores.

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MIGUEL DOS SANTOS CERQUEIRA, Defensor Público, estudioso de filosofia, história e política e militante de Direitos Humanos, titular da Primeira Defensoria Pública Especial Cível do Estado de Sergipe. E-MAIL: migueladvocate@folha.com.br

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